SOBREVIVÊNCIA

 


Na televisão eles falavam apenas sobre isso. Nas redes sociais a mesma coisa. Pessoas perderam seus empregos. Empreendedores fecharam seus negócios. Quem trabalhava por conta própria ficou sem renda e não sabia como comeria ou pagaria as contas. Um ano se passou e nada mudou. A pandemia arrasou a todos, mas a esperança é a última chama que apaga.

Celeste era fisioterapeuta concursada de uma cidade do interior e apesar de amar seu trabalho, tinha dificuldade de exercê-lo, pois como todo lugar sempre há os superiores e no hospital tem vários, neste caso, ela se reportava aos da ala de UTI – Unidade de tratamento intensivo no pós-operatório e também para os responsáveis pelo setor de internação.

Sua vida era o trabalho, não conseguia se imaginar fazendo outra coisa, seus pais sempre perguntavam se tinha certeza da escolha que estava fazendo, pois não era uma área fácil, poderia lidar com doenças contagiosas e mesmo não sendo cirurgiã, lidava com pacientes que poderiam vir a óbito, mesmo assim, não se importava, pois queria fazer diferença na vida das pessoas, lhes dar mais conforto e esperança, além da alegria de ver a recuperação quando possível.

A parte mais difícil do seu trabalho eram os supervisores, que mais atrapalhavam do que supervisionavam. O pior deles era o da UTI, sem conhecer seu trabalho, pois era médico e não fisioterapeuta, ficava se intrometendo o tempo todo nas escolhas profissionais que ela tomava, principalmente se eram pacientes com dificuldades respiratórias.

- Raul, deixe-me fazer o meu trabalho. Eu sei o que estou fazendo. – disse Celeste.

- Não, não sabe o que está fazendo. Você não é médica. Perceba que precisa de autorização para liberar este procedimento que pensa em fazer. Preciso consultar primeiro meus superiores e a equipe de pneumologia antes de liberar isso aí. – respondeu o supervisor.

- Raul, não posso esperar, este é o meu trabalho, nunca precisei de liberação, nem autorização, se eu não trabalhar a capacidade respiratória desta paciente ela pode ficar incapacitada de sair do respirador.

- Isto é você que está dizendo, o corpo se cura com o trabalho dos profissionais médicos, remédios e terapias com as tecnologias de ponta usadas neste hospital e não com seus exercícios de respiração.

- Por favor, eu preciso continuar a fazer o meu trabalho e...

- Preciso que me mande por escrito um relatório dos exercícios que pretende efetuar na paciente, se acha que é urgente, se apresse. Espero que me entregue ainda esta tarde, pois agendarei a reunião com todos o mais breve possível. Esteja ciente que se algo acontecer com a paciente, será culpa sua, se insistir a passar por cima de minhas orientações. – Ele virou as costas e ignorou sua nova tentativa de explicar.

Celeste estava preocupada, pois a paciente era uma senhora idosa e estava com a saturação de oxigênio baixando e se ela não fizesse os procedimentos a tempo precisaria ser entubada, piorando sua saúde e aumentando seu tempo de recuperação, talvez não saísse mais da ventilação mecânica devido à idade.

Após a reunião, foi liberado o procedimento, mas foi tarde de mais, já haviam entubado a paciente e ela precisou rever todo o seu planejamento e solicitar nova autorização.

Sua vida começou a girar em torno disso e não conseguiu mais chegar perto dos pacientes, que pioravam sem sua intervenção. Celeste foi se desmotivando e mesmo sem saber o que fazer estando no meio de uma pandemia, largou seu cargo no hospital.

Arrasada por não poder fazer o que mais ama, buscou meios de realizar seu trabalho online, por meio domiciliar, mas ninguém tinha condições de pagar o preço que ela havia estipulado. Viu-se sem saída, com as economias acabando, voltou a morar com seus pais.

Passou a ajudar sua mãe a fazer brownies para vender, pois a aposentadoria do pai não dava para todas as despesas. E aos poucos sua paixão e seu dom de ajudar as pessoas foram ficando de lado, pois sua sobrevivência estava em primeiro lugar agora.

Depois de dois meses, recebeu uma mensagem de uma enfermeira do hospital, que era sua companhia de almoço nas quintas-feiras, contando o que ficou sabendo sobre o supervisor Raul e o porquê de tanta implicância com o trabalho dela.

- Celeste, descobri que o Raul, antes de vir para cá, trabalhava num hospital particular no centro, quando a mãe dele, logo no início da pandemia pegou o corona vírus, ficou internada lá. Eles estavam com pouco pessoal, pois estavam de quarentena por terem sido infectados e não encontravam um fisioterapeuta adequado. A mãe do Raul ficou sem este atendimento na primeira semana que deu entrada no hospital e quando encontraram o especialista era tarde demais para ela. – contou a enfermeira.

Celeste ficou pensativa com essa bomba de notícia e decidiu que não iria mais desistir de seus sonhos e de sua carreira só porque pessoas feridas projetavam nela seus problemas pessoais e o que é pior, prejudicando a vida de outras pessoas, tantas outras vidas que ela poderia ter ajudado, mas se permitiu desanimar por ter perdido a esperança, de tanta incomodação que sofreu.

Continuou ajudando sua mãe com os doces, porém encontrando tempo, insistindo e recomeçando de uma nova forma a buscar meios de ajudar as pessoas, pois era isso o que ela fazia.

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