AS BRUXAS AO LADO
Sempre quis morar sozinha e ter meu próprio apartamento, meu sonho era estar num prédio bem alto. Assim, quando encontrei esse ap virado pro mar, com o último andar disponível, não hesitei, mesmo que fosse nessa rua deserta e sem saída, nem por ter apenas duas vizinhas na porta ao lado.
O prédio inteiro estava às moscas, mas a vista era de tirar o fôlego, infelizmente a gente tem que trabalhar e não pude curtir muito tempo meu novo lar. Tive apenas dois dias para fazer a mudança antes de começar no meu novo emprego, que era maravilhoso por sinal, pois eu podia ir a pé de casa, eram apenas 4 quadras do meu prédio.
Na segunda de manhã, desci as escadas, eram três lances, saí da minha rua e peguei a principal em direção da lojinha de chinelos logo ali, bem no centro daquela cidadezinha litorânea. Quando saí do ap, pensei ter visto uma sombra por baixo da porta das minhas vizinhas, mas deve ter sido só impressão, desde que cheguei ainda não conheci as senhorinhas, devem dormir muito, não se escuta um ruído vindo de lá.
Apesar de ser novembro, teve bastante movimento na loja, a dona e eu tivemos pouco tempo para conversar durante toda a manhã. Ela tinha muitos amigos, conhecidos que vinham tagarelar, nem todos clientes realmente. Vendas que é bom não foram muitas.
Depois do almoço tivemos um tempinho para nos conhecermos melhor. Diana me contou que mora ali desde que nasceu e nunca soube de ninguém que conseguiu ficar no meu prédio por mais de um mês, a maioria eram veranistas, moradores mesmo apenas as duas idosas moravam lá.
Um outro morador que ficou quase um mês, era advogado no fórum da cidade, passava pouco tempo em casa, além de ser mulherengo. Ela me contou que ele começou a agir estranho, começou a falar palavras sem nexo no trabalho, e uma amiga dela contou que foi meio bizarro com ela certa noite, começou a cacarejar igual galinha durante a transa e acabou com o clima, ela saiu correndo do motel, o que também era esquisito já que ele morava sozinho, mas nunca levou ninguém naquele ap, que era o que eu estava alugando, e não tem nada de estranho ao meu ver.
Diana especulou que todo mundo acha que minhas vizinhas são bruxas, não saem muito do apartamento porque estão fazendo feitiços, por isso ninguém consegue morar lá. Disse que só se vê a mais nova, que sai de vez em quando, e além disso, elas recebem muitas encomendas, que podem ser os ingredientes para os feitiços.
Achei toda essa história ridícula e resolvi tirar a limpo, assim que chegasse o fim de semana, levaria um bolo pra poder me apresentar e conhecê-las apropriadamente, só que elas foram mais rápidas do que eu. Escutei três batidas na porta, mal tinha chegado em casa.
Não enxerguei nada pelo olho mágico, então decidi abrir a porta.
A senhora não tinha mais do que um metro e meio, estava em frente a porta segurando um prato com um pano de prato cobrindo o que havia nele.
– Boa noite, minha jovem.
– Boa noite. Me chamo Kira e a senhora?
– Pode me chamar de Zilda. Lhe trouxe uma torta de maçãs, espero que goste de maçãs?
– Claro que sim, Dona Zilda.
– Só Zilda, por favor.
– Claro. Tivemos a mesma ideia, estava pensando em levar um bolo pra senhora e sua irmã?
– Sim, Soraia. Que gentileza, querida, mas não precisa. Quem sabe vens jantar na sexta conosco e lhe apresento minha irmã?
– Não senhora, não quero lhes dar trabalho.
– Está combinado então. Esperamos você às sete.
Ela se virou e sumiu pela porta do seu apartamento sem esperar minha resposta, que não importava, pelo jeito.
Naquela mesma noite, comecei a perceber que, sim eu tinha companhia ao lado, pois enquanto estava tomando banho, comecei a ouvir sons estranhos, como se algo estivesse sendo eletrocutado, e começou a piscar minha luz e o chuveiro desligou, ótimo. Minhas amáveis vizinhas resolveram fazer sei lá o que e acabou caindo o disjuntor, e agora? De repente o chuveiro voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido. Graças a Deus, terminei meu banho e fui fazer o jantar.
Após o jantar avistei a torta de maçãs das vizinhas e fiquei receosa.
– Maçãs? Não podiam ser morangos? Que bobagem. Uma gentileza dessas... Amanhã, amanhã eu provo.
Às três e meia da madrugada eu dei um pulo da cama.
– Pelo amor de Deus, o que foi isso?
Só havia o batuque no meu peito. Não havia mais vestígios do som esguiniçado e esmagado de segundos atrás, como se alguém desse um último suspiro ao pé do meu ouvido.
Resolvi fazer uma xícara de chá calmante com todos os chás que pudessem fazer a mágica de me acalmar depois de acordar um passo da morte e sentei na poltrona no meu quarto. Melzinha aproveitou e subiu no meu colo.
Não conseguia esquecer aquele som terrível que me deu um coice do mundo dos sonhos, o que poderia ser e porque parecia tão próximo dos meus ouvidos, será que Melzinha miou e me confundi? Quando dei o primeiro gole no chá, cuspi tudo em cima da gata, que reclamou e pulou unhando as minhas pernas. Meu coração não ia sossegar tão cedo. Havia colocado sal no lugar do açúcar.
No dia seguinte, me atrasei feio, acordei zonza, toda torta no sofá. Dei um pulo sem saber nem onde estava e acabei assustando a Mel. Levei a torta pra loja, pra compensar, mas só piorou tudo, não ia conseguir comer uma torta inteira e muito menos comer sozinha, vai que estava envenenada?
- Bom dia, Diana. Tudo bem? Trouxe uma torta pro café da manhã.
- Nossa, foi por isso que se atrasou, está perdoada.
- Foi um presente das vizinhas de boas vindas.
- Sua louca, joga isso fora. E trouxe pra me envenenar? Que amiga que você é.
- Capaz. Vou provar pra te mostrar que está ótima e que não tem nada a ver o que está dizendo sobre as senhoras.
Com toda a coragem que tirei sei lá de onde, provei e estava deliciosa. Não morri, mas minha chefe queria me esganar, tivemos que servir para as clientes, não deu pra evitar, viram aquela torta irresistível no balcão, só senti o fuzilamento no olhar de Diana, espero não perder meu emprego.
Na volta pra casa me senti um pouco tonta, mas deve ter sido pelo dia que foi bastante quente e movimentado. Levava comigo o prato vazio das minhas vizinhas, satisfeita que logo poderia devolver e me livrar de toda essa bobagem, o problema é que não estava encontrando a rua do meu apartamento, acho que estava pensando demais e acabei me perdendo.
Meia hora depois finalmente em casa, encontrei a Mel na minha cama ao lado de uma barata, pelo menos estava morta.
- Bom trabalho minha linda. Só não precisava deixar em cima da cama né?
Estava exausta, não conseguia nem ir tomar banho, com o calor resolvi abrir a janela pra respirar um pouco do ar salgado e noturno, foi quando o bicho asqueroso entrou, voou por todo o quarto, só lembro de gritar e sair correndo, me escondi no banheiro, até que lembrei da janela e se Mel pulasse.
Não lembro se foi um minuto ou cinco, mas abri a porta, tudo em silêncio, a Mel estava sentada do lado de fora da porta me esperando e olhava pra mim de um jeito estranho, parecia que estava pensando. Então ouvi o microondas ligado.
- O quê?
Corri pra cozinha, já havia esquecido o morcego, cheguei e tudo silêncio. Nem estava ligado na tomada. Pensei estar ficando louca ou pode ter sido o calor, estava cansada, não tinha dormido bem à noite, só pode ser isso. Lembrei da janela e corri para fechá-la, nem sinal de morcego, devia ter saído, estava exausta para pensar o contrário, então fui fazer um chá. Coloquei a caneca para esquentar a água e sentei no sofá pra esperar e dormi.
Acordei com um cheiro estranho, quase coloquei fogo no apartamento, a água secou e a caneca estava ficando preta. Sentei no chão da cozinha e comecei a chorar. Não sabia porque tudo estava dando tão errado. Até que me veio a ideia maluca na cabeça, as vizinhas.
Eu ia investigá-las, mas eram tão queridas, nem incomodavam. Lembrei que o mal-estar começou depois da torta. Tomei um banho e fui pra internet ver se encontrava alguma coisa. E nada. Peguei um copo e coloquei na parede pra ver se ouvia algum som. E nada. Então fui devolver o prato delas. Mas ninguém me atendeu, o que foi estranho pelo adiantado da hora. Cansada, fui descansar, quarta-feira tem mais.
Esta manhã parecia tudo normal, dormi bem, estava melhor. Nem sinal de morcego. Tomei um café reforçado. Nenhum barulho ao lado. Hora de ir trabalhar. Chegando lá, a chefe parecia bem disposta.
- Bom dia, Kira. Que sexta-feira linda não é? A gente podia fazer algo depois do trabalho, o que acha?
- Bom dia. O quê? Pára. Hoje é quarta.
- Oi? Você gosta de trabalhar hein. Pode vir domingo se quiser.
- Não Diana. Hoje é quarta-feira. Tenho certeza absoluta.
- Querida, você está bem? Sabia que não devia ter comido aquela torta.
- Sim, a torta, eu trouxe ontem.
- Não, Kira. Foi na terça. Quem sabe você se senta aqui. Vou pegar uma água pra você.
Não estava gostando nem um pouco desta piada de mal gosto. Peguei o celular e tive um treco ao perceber que era realmente sexta-feira.
- Na verdade não estou muito bem. É melhor eu ir pra casa. Se eu melhorar volto à tarde.
- Ok então. Qualquer coisa me liga.
Cheguei esbaforida em casa, apavorada com o que estava acontecendo. Liguei o notebook e era sexta. Não era possível isto estar acontecendo. Como ia perder dois dias assim?
- Aquelas malditas.
Procurei o prato da torta, mas não estava em lugar nenhum. Comecei a ouvir barulho nas portas do interior do apartamento, como se tivessem muitos insetos dentro delas. Mas não queria ouvir, não queria saber. Precisava entrar naquele apartamento e não ia ser no jantar.
Uma batida de porta chamou minha atenção. E outra ideia maluca.
- Hora de seguir a velhinha.
A maldita caminhou por horas dando voltas, não cansava nunca e voltou pro apartamento. Não entrou em nenhuma loja, não falou com ninguém. Nada. Já era quase meio-dia. O que eu poderia fazer? Terça-feira cheguei a perguntar pra algumas clientes na loja sobre as senhoras, mas ninguém sabia de nada. Lembrei de alguém que poderia ter mais informações, o dono do prédio.
Mandei whatsapp combinando com o senhorio de irmos tomar um sorvete daqui a duas horas, mas estou ansiosa demais pra ficar parada esperando. Ouvi as vizinhas saindo de novo, hora de entrar no apartamento e descobrir que maluquices têm lá. Depois que me certifiquei que a Zilda e a Soraia entraram num carro aqui na frente, desci as escadas e fui pro pátio dos fundos analisar a situação.
São três andares e estamos lá no último, a janela delas parece aberta. Tem um ferro soldado na parede ao redor do cano da calha, talvez eu possa subir por ele. Tem uma escada na garagem que pode me deixar quase na sacada do segundo andar, depois sigo por este ferro subindo como se fosse uma escada.
Assim, cheguei sem ninguém me ver até a sacada das velhas, a janela abriu e entrei. Encontrei um apartamento normal de velhas, tudo bonito com cores claras e muito crochê. Olhei os armários na cozinha, pareciam normais. O quarto também, mas quando abri o guarda-roupa vi uma fenda na parede no fundo dele, foi quando ouvi um barulho e entrei em pânico.
Saí do quarto, olhei em volta, escutei de novo o barulho, vinha da lavanderia, pareciam bater de asas. Então ouvi vozes, corri pro quarto e entrei no guarda-roupa, não sei porque fiz isso, idiota, invés de sair voando dali, mas minha mente estava curiosa demais, achei uma maçaneta e finalmente ia descobrir o que era aquela luz roxa atrás da fenda.
Não sei dizer o que houve, só sei que acordei na minha cama e recebi uma ligação da minha mãe dizendo que sofreu um acidente, depois um whatsapp da minha chefe dizendo que a loja pegou fogo e não poderia mais trabalhar lá, e o proprietário pediu que eu deixasse o apartamento, deve ter ficado chateado por não ter aparecido na sorveteria, acho que não apareci.
Resumindo minhas vizinhas me ajudaram a empacotar as coisas e levar pro carro, são senhoras adoráveis, não sei porque todo mundo fica inventando calúnias das pobres coitadas.


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