PSICOSE
- Estamos caminhando há
horas Roberto, admita que nos perdemos. – disse Laura ao marido.
- Estou escutando o barulho
do rio, vamos até lá que tudo dará certo. – amenizou Roberto.
Os dois eram casados há vinte
e cinco anos, e no aniversário de casamento, Roberto resolveu usar a
criatividade para comemorar de um jeito diferente, os filhos já crescidos não
precisavam deles. Porém, como tudo o que é mal planejado, não aconteceu como
ele esperava.
Em sua mente eles caminhariam
por dois quilômetros e sairiam numa estradinha que daria numas cabanas, que
ficam perto de um rio. Passariam uma noite reacendendo a chama da lua de mel e
voltariam na tarde seguinte.
A noite caiu como uma pedra
no rio, e o caminho cheio de cascalho atrasou o passo dos dois. O tempo estava
limpo o que possibilitou a iluminação da lua, porém as árvores altas
dificultavam a percepção dos buracos pelo caminho, além dos arbustos, que
haviam aumentado de número, fechando o cerco sobre eles.
- Ai, uma coisa me picou na
perna, está coçando. Se sairmos daqui vivos eu te mato, Roberto. – gritou Laura
histérica.
- Calma mulher, devem ser
mosquitos. O barulho da água está mais alto, estamos próximos do rio, poderei
me orientar de lá. – disse Roberto tentando acalmá-la, apesar de estar
apavorado e perdido.
O vento duro e cortante
gritava por entre as árvores, que balançavam freneticamente, se agredindo e
chicoteando, piorando o animo de Laura, que estacou de repente.
- Por que parou Laura?
Ela se virou para o marido,
enquanto olhava para as mãos abertas e meladas com algo espesso, gelado e
viscoso. Ele percebeu que ela teria um ataque de nervos a qualquer momento,
quando viu seu rosto congelado com a boca aberta, testa franzida e olhos a
saltar pra fora.
- Calma. – ele levantou as
duas mãos em direção a ela. – Respira, soltando o ar devagar.
Ela gritou e correu. Entrou pela
mata, pegando outro caminho pela lateral.
- Espera. – ele tentou
alcança-la, mas a perdeu de vista.
Sozinho, continuou andando e
chamando por Laura, na esperança que ela respondesse de volta, mas nada. Ficou
assim, por mais ou menos meia hora. Resolveu que iria para outra direção, ainda
podia ouvir o rio correndo próximo dali.
Ao chegar até a margem,
olhou para ambos os lados e viu algo mexer mais adiante rio acima. Foi até lá e
percebeu que eram as roupas de sua mulher e a mochila que ela carregava. Chamou-a
novamente, mas sua voz era um sopro surdo em meio à ventania.
Abaixou e pegou as roupas,
sentiu uma gosma quente e úmida entre os dedos, ao levantar a mão na altura dos
olhos, a lua permitiu que visse sua cor avermelhada escorrendo.
***
- Filha, estamos saindo,
cuida do seu irmão. – pediu sua mãe.
- Tudo bem – Respondeu a
garota.
- Voltamos amanhã para o
almoço.
- Ótimo.
E ficou ali olhando a pintura como se pudesse ouvir o som de ossos quebrando e da água batendo nas pedras.


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