O POBRE SONHADOR
Pedro
sempre ouviu que os pobres eram pobres por escolha. Poderiam ser milionários se
assim o quisessem. Ainda mais hoje em dia que todos têm acesso à informação, a
livros, a programas assistenciais, auxílio do governo, atendimento à saúde e
até roupa e comida se precisarem das campanhas. Sentia-se amparado, tranquilo e
esperançoso que quando crescesse realizaria todos os seus sonhos, pois o mundo
é daqueles que estudam e se esforçam.
Seus
pais sempre lhe garantiam que não faltasse nada, e afirmavam e incentivavam que
ele tinha razão em lutar pelo seu sonho de ser um empresário de sucesso e
milionário, pois querer é poder, mesmo que os pais fossem catadores e ajudavam
na cooperativa de reciclagem, o que ele nunca questionou o porquê de não
quererem sonhar mais alto.
Quando
estava no ensino médio, e discursava aos colegas de sua escola estadual no
bairro violento que morava, dizendo que seria um empresário de sucesso e que
teria muito dinheiro, era motivo de chacota e humilhação, chamavam-no de bobo
da corte, iludido e coisas bem piores, mas ele não se importava, sabia que
provavelmente eram pessoas acomodadas que não queriam deixar de serem pobres.
Mesmo
ainda na escola, ele passava todo o seu tempo livre pesquisando na biblioteca
da escola, na biblioteca da cidade, pois tinha computador disponível com acesso
à internet apenas para estudo. Ele decidiu que faria administração para saber
mais sobre como ter o próprio negócio e assim o fez.
Passou
numa universidade federal, e mantendo seu sonho, se formou em administração.
Logo depois cursou uma pós-graduação com o dinheiro que juntou de um estágio
que fez enquanto cursava a faculdade.
E
foi usando sua criatividade, tão estimulada por seus pais na infância, quando
ia com eles à cooperativa, juntando sucata e montando diversos brinquedos, que
escreveu todo o seu plano de negócios, o sonho de sua vida, seu empreendimento,
pois sua família o ajudou a ver além do óbvio, possibilitando-o a sonhar.
Com
o plano em mãos pensou que precisava de capital para abrir seu negócio, de um
endereço e dar entrada a vários documentos passando por muita burocracia e logo
também contrataria funcionários para expandir, foi sonhando e imaginando,
planejando o que precisava para alcançar seu sonho.
Pedro
conseguiu um emprego, por anos, gastava com o mínimo, tentou um empréstimo, mas
não conseguiu, fez todos os cursos online grátis que via pela frente, continuou
frequentando a biblioteca da faculdade, comprou um computador e alugou uma casa
melhor para ele e os pais morarem.
Por
cinco anos fez tudo o que podia, tentou abrir uma startup, que fracassou em
menos de um ano, pois não podia largar o emprego para se dedicar totalmente a
ela, procurou por investidores, tentou abrir uma ong, se inscreveu para
concorrer uma vaga pública por meio de licitação à prefeitura de sua cidade, mas
não passou.
Sua
especialização em marketing digital ajudou a conquistar alguns clientes que
atendia particular, além do trabalho integral de quarenta e quatro horas
semanais, estava exausto, mas mesmo assim procurou um especialista em pequenas
empresas e se consultou, conseguiu algumas dicas e continuou tentando.
Pedro passou a vida morando com os pais, na casa alugada, não casou, mas conseguiu subir de cargo na empresa, passando a gerente do setor de marketing e continuou com seus raros clientes que atendia nos fins de semana.
Aos poucos observou seus pais e entendeu, que pobre não tem oportunidade de ser rico neste mundo, que eles aprenderam cedo, que para poder comer e viver de forma honesta sendo pobre é preciso trabalhar duro e se conformar, pois apesar de ter se esforçado todos aqueles vinte anos, não há lugar no mundo dos ricos para ele, mesmo sendo o pobre mais inteligente, criativo e estudado, principalmente se for honesto.



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