SOFRIMENTO MUDO
Quando
vemos uma família unida num restaurante, todos juntos comendo, dando risada,
pensamos em união, amizade, amor e felicidade, quanta gratidão se pudéssemos
fazer o mesmo com nossos familiares, mas nem tudo o que aparenta ser, é.
Rosinha
tinha levantado azeda naquele dia, mas quem assistia a adolescente rindo da sua
irmã por ter estapeado o óculos enquanto gesticulava, não imaginaria tal
infortúnio rotineiro de sua juventude.
Detestava
esses passeios em família, não fazia sentido estarem juntos para algo que
deveria ser agradável, com pessoas que se detestavam e brigavam pelo detalhe
mais insignificante.
-
É o último guardanapo, já matou uma floresta inteira sua estabanada. - reclamou
com a irmã mais nova.
-
Ô mãe, a Rosa de novo. - a caçula pediu socorro a sua mãe.
-
Que saco. Não sabe se defender não, bebê chorona. - ralhou irritada.
-
Vamos parar vocês duas. - a mãe chamou atenção delas.
Rosinha
então continuou mexendo no celular, pegou seu fone de ouvido e foi escutar suas
músicas, enquanto mantinha a mente reclamando de sua mãe que sempre defendia a
praguinha e não se importava com ela.
Chegando
a sua casa, Rosa começou a reclamar de dor no joelho e no pé, pois a trilha que
tinham feito até uma cachoeira foi muito íngreme forçando o joelho para subir e
o pé para se equilibrar.
-
Põe gelo, passa uma pomada, levanta os pés pra cima. Não adianta ficar
reclamando, a dor não vai passar. - disse sua mãe.
Rosa
saiu mancando e se trancou no quarto. Pensou que se fosse a coitadinha da
boca-aberta da sua irmã, sua mãe se importaria. Assim, não fez nada do que sua
mãe falou, até porque nada adiantaria, sua artrose começou cedo e como os pais
achavam besteira fazer academia, não a incentivaram a ir.
No
dia seguinte, durante a tarde, Rosa foi até a cozinha tomar água, ainda
mancando, quando sua mãe a chamou, com os olhos marejados, quis lhe contar uma
história que leu na internet sobre uma jovem de quinze anos com distrofia
muscular, que estavam pedindo doações para o tratamento e para os aparelhos
para apoio e respiração.
-
Mãe, eu também tenho problema de saúde, mas vocês não deram a mínima. Vou ficar
igual a essa menina se não tratar minha artrose. - respondeu Rosa.
-
Bobagem. Devia ser grata a Deus por não estar assim, ao invés de ficar
reclamando de barriga cheia. - disse sua mãe a repreendendo.
Rosa
voltou para o quarto, sem tomar a água, e chorou. Chorou por não ser
compreendida, pelas dores que tinha pelo corpo, por não conseguir sentir prazer
em passear, dançar, fazer trilha, nem vontade de namorar ela tinha, se afastou
dos amigos, não havia mais desejos e sonhos.
-
Por que nasci? Só atrapalho. Ninguém gosta de mim mesmo. Minhas dores não são o
suficiente para minha família se importar, preferem se emocionar com as fake news da internet, do que perceber a
realidade dos meus sofrimentos.
Rosa,
fechada e sozinha em sua dor, abriu a janela e se jogou do sétimo andar
tentando se libertar da sua realidade, e infelizmente sua família jamais
entenderia o porquê.



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