A PROSA
Um lugar que tem em qualquer
cidade do interior é a praça, sempre perto de uma igreja, é excelente espaço
para passar o tempo, bem conservada, lugar para sentar à sombra, bater um papo
com os vizinhos, xeretar a vida dos turistas e principalmente para os idosos
contar suas histórias de vida ou mesmo um causo do outro dia, mas ninguém
imagina se surpreender num local pacato como este.
Numa praça qualquer de uma
cidade pequena dois velhos estavam tomando chimarrão, sentados embaixo de
algumas árvores, quietos, a princípio. Olhavam o movimento que era escasso e
passavam o chimarrão um para o outro despreocupados com a pandemia.
Enquanto pensavam na vida,
parou um carro e desceram alguns turistas, assim o supunham, pois não os conheciam
das redondezas. Primeiro saiu a mãe, depois o pai e os dois filhos, um casal,
eram muito parecidos por isso acreditavam que eram irmãos, além disso, estavam
discutindo.
Enquanto a família passava
por eles, os dois senhores iam lentamente girando sobre o assento para
acompanhar o que acontecia com os adolescentes, não demorou muito foram embora,
sem cessar a briga.
O velho de boina entregou o
chima ao companheiro e se aprumando todo resolveu contar uma história parecida
com esta dos irmãos que discutiam sobre quem era mais alto, recordando-se de
imediato ao acompanhar os dois a pouco.
- Sabe compadre, lembro-me
como se fosse ontem, mas faz uns 40 anos, esses dois irmãos reavivaram minha
memória. - disse um velho pro outro.
- E o que seria Seu Beto? Perguntou o que
mateava.
- Pois quando tinha uns 35
anos mais ou menos, viajava muito com minha esposa pro interior, mais interior
que isto daqui, para visitar minha mãezinha, que Deus a tenha.
- Mais interior que aqui?
Era fazenda então? Perguntou o outro.
- Deixa eu contar. -
reclamou o velho com a boina e pegou o chimarrão pra ele.
- Como eu estava te
contando. Não tinha carro naquela época, então a velha e eu íamos de ônibus até
minha mãe. Era todo sábado que a gente ia lá. Era uma viagem longa, pois aquela
banheira velha parava a todo instante.
- Mas capaz, depois de
casado eu fiquei um bom tempo sem ir lá na mãe. Pra que você ia lá toda a
semana? - se intrometeu o outro de novo.
- A mãe era muito doente,
não queria me sentir culpado se ela morresse de repente sem me despedir. A
questão foi que no ônibus tinha um rapaz igual esse aí que passou na praça,
briguento, nada estava bom, insatisfeito com a vida. - contou o velho da boina
parando para tomar o mate.
- Os jovens de hoje em dia
são assim mesmo. Tudo desagrada. Meu filho mesmo sempre reclamava de tudo que a
gente fazia por ele. Então finalmente casou e sumiu. Não vejo a meses. -
comentou o vizinho.
- Mas dentro do ônibus fica
feio o guri reclamando de tudo o que o pai falava. Não concordava com ele em
nada e ainda xingava, dava pena do pobre homem. - fofocou e deu um gole em sua
bebida.
- O impressionante é que o
pai não respondia nada, baixava a cabeça e aceitava aquela afronta, imagine só.
Lembro que ele disse algo sobre fazer uma reforma e que usaria um material lá
que considerava o melhor e o filho perguntou se ele ia cagar dinheiro pra pagar
e que ele não pensava antes de fazer as coisas, que não tinha certeza se era
filho dele, pois não tinha herdado tanta burrice. Coisas horríveis assim ele cuspiu
no pai - disse o velho indignado.
O outro só concordava com a
cabeça e ficava olhando o chimarrão pra ver se indicava para o velho,
indiretamente, que queria tomar também. Mas o outro estava olhando para as
árvores recordando os causos antigos.
- Outra vez ouvi um homem de
cabelos brancos chamando uma guria de mãe, olhei mais detidamente, mas acho que
no máximo devia ser esposa e não mãe. A mulher olhou braba pra mim e pra ele. -
começou a rir o idoso engasgando.
- Você ta bem seu Beto? -
perguntou o outro preocupado.
- É só o pó do chimarrão. Não é nada. Vou te
dizer o problema com esses jovens, é falta de alguém, que ensine bons modos. Os
pais hoje em dia são fracos, sem pulso. Na minha época meus irmãos apanhavam
bastante e não levantavam mais a voz, e eu era esperto, ficava bem quietinho
pra não sobrar pra mim.
- Eu não apanhei, ainda bem.
Minha irmã apanhou e não adiantou, coitada, pegou barriga cedo e foi expulsa de
casa. Não sei o que aconteceu com ela. - lembrou o outro.
- Sabe, meu filho veio
passar o fim de semana aqui em casa, quis dar um tempo da esposa, andaram
brigando. - respondeu o velho terminando seu mate.
- E porque não está passando
esse tempo com ele? - perguntou o outro animado para finalmente beber um pouco
do chimarrão.
- Ah, eu queria, mas...
- Pai, já passou tempo de mais
aí. E ainda está sem máscara. Faz tudo errado mesmo. Entra já pra dentro.
- gritou o filho da grade do portão da casa do seu Beto.
O velho rapidamente se
levantou, recolheu suas coisas e saiu correndo, quase tropeçando na calçada.
Nem se despediu do compadre.



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