O SORRISO DIGITAL
Quando o natal se aproxima, a magia
nos encanta e os corações deveriam se encher de alegria. O ar fica mais leve e
nos movemos flutuando a cada passo. As gentilezas aumentam, os sorrisos preenchem
os vazios de palavras e, infelizmente, este ano de 2020, perdemos a luz de
dezembro.
Luziana, uma menina linda, com cachos
perfeitos de chocolate, era um doce. Lábios manchados de morango do pirulito
que acabou de lambuzar-se. Olhos grandes, que buscam e engolem as coisas boas e
as ruins.
No auge de sua infância, mesmo sem
poder sair de casa, criativa, sempre encontrava o que fazer. Seus pais muito
ocupados, buscando o sustento da casa, não puderam montar o pinheiro para
encher o lar de mais cor e alegria, neste momento tão necessário. Então, no
fundo de um armário, lá foi Luziana procurar nas caixas onde estavam as
bolinhas e a árvore de natal.
Ao encontrar, bem no fundo embaixo,
todos os enfeites, correu saltitante até sua mãe, que estava no telefone.
- Mamãe, mamãe. Encontrei os enfeites
de natal. – gritou animadíssima, sentindo a mão de sua mãe nos seus cabelos.
- Posso montar? – pediu puxando a saia
de sua mãe. Ainda sem resposta continuou insistindo.
- Mamãe! Posso montar a árvore de
natal? – seus olhos dilatados e esperançosos olhavam para cima a espera de
qualquer sinal que representasse um sim.
- Mamãe? Posso? – sua mãe lhe deu um
olhar aborrecido.
- Vai, vai. – Sussurrou.
Triunfante, Luziana saiu aos tropeços,
cantarolando:
- Vamos ter uma árvore, vamos ter uma
árvore e luzes piscando.
Foi quase uma manhã inteira tentando
montar a árvore, que ficou meio torta, mas em pé. Colocou algumas bolinhas, mas
não conseguiu desfazer o nó que se fez ao guardar as luzinhas no ano passado.
Então decidiu pedir ajuda ao seu pai, que estava na mesa da sala no notebook.
- Papai, papai. – entrou correndo
acreditando que ele conseguiria resolver o problema.
- Agora não posso, querida. –
respondeu o pai sem tirar os olhos da tela.
- Mas papai, não consigo arrumar essas
luzinhas embaraçadas. – disse colocando o grande nó em cima da mesa.
- Pede para sua mãe. – disse seco.
- Mas a mamãe está no telefone. –
disse já fazendo beiço.
- Ela já deve ter saído do telefone,
meu anjo. Papai precisa trabalhar. Vá procurá-la, está bem? – levantou-se
aproveitando para ir ao banheiro, já que foi interrompido.
Encontrou a mãe na cozinha tomando um
café.
- Mamãe, mamãe. – sua alegria se
acendeu novamente.
- Que foi minha flor? – perguntou com
o olhar fixo na parede.
- Não consigo arrumar as luzinhas. –
disse jogando-as no colo da mãe.
- Onde pegou isso? Já pediu para o seu
pai? – largando por um minuto o café e dando uma mexida nos fios.
- Sim. Mas ele disse para pedir pra
ti. – olhava esperançosa para a mãe, sua salvadora.
- Por favor. – disse juntando as
palminhas das mãos abaixo do queixo.
Sua mãe começou a desenrolar, deu a
ponta para ela segurar e foi ajeitando. Enquanto ia ganhando mais fio, ela
começou a se enrolar com ele por sobre os ombros, rindo e arrodeando, feliz que
ganhou atenção e ajuda da mãe por um momento.
De repente o telefone da mãe tocou e o
momento em família também. Luziana se viu com metade das luzinhas sobre ela e a
outra metade em uma bolinha de fio. Mas estava satisfeita, pois poderia prender
na árvore a parte solta.
Foi logo arrumar o pinheiro, colocou
as luzinhas que pode e o resto deixou embaixo da árvore. Só faltava ligar,
achou a tomada próximo da mesinha, ajeitou e alcançou o plugue. E acendeu a luz
em seus olhos ao perceber que tinha feito quase tudo sozinha.
- Papai, papai. Vem ver a árvore que
eu fiz? – gritando e puxando o braço do pai. Mas ele se desvencilhou em um
puxão.
- Depois o pai olha. – deu um beijo na
testa da filha e voltou ao notebook.
- Mamãe, mamãe. – entrou gritando na
cozinha.
Sua mãe girou nos saltos e fez um
olhar irritado se abaixou e com o indicador bateu nos lábios melados da menina.
Parecia uma estatua de olhos arregalados. Quando sua mãe se afastou, deu dois
passos para trás e saiu correndo para ficar com sua árvore.
Sentou no tapete na frente da mesinha
que estava sua árvore, ficou ali olhando as luzinhas piscarem, mas seu próprio
brilho havia se apagado. Por que uma árvore só para ela? Será que o Papai Noel
ia gostar da árvore, e se ele descobrisse que ela fez sozinha, será que os pais
ganhariam presente?
Então pensou em desmanchar para montarem
juntos quando os pais tivessem tempo, assim todo mundo ganharia presente,
enquanto se levantava para buscar as caixas do armário, seu pai apareceu
agitado puxando-a pelo braço até seu quarto enquanto falava ao telefone.
- Sim, sim, só um pouquinho tá? – o pai
a puxava rápido sem explicar o que estava acontecendo, e ela começou a fazer
careta para chorar, pensou ter feito algo errado.
- Querida, desculpe se te assustei,
sua professora quer falar contigo. Esqueceu-se da aula? Tira as coisas de cima
da mesa, rápido. – enquanto o pai arrumava as coisas, ela foi se acalmando e
limpando as lágrimas do rosto.
- Pronto, vai ficar bem? Estou indo.
Boa aula. – o pai bagunçou seu cabelo, que nem se mexeu e correu pra sala,
deixando a porta do quarto dela aberta.
- Oi Luziana, o que foi? Por que está
chorando? – a professora preocupada perguntou.
- Nada professora, já passou. Saudade
de você. – abriu um sorriso enorme de alegria por ver a professora.
- Eu também Lulu. Estamos na véspera de
Natal, conseguiram montar a árvore? – perguntou a professora.
- Sim. – pulando da cadeira, pegou o
celular e saiu disparada para perto da lareira onde tinha montado a árvore.
- Olha professora. Fui eu que montei. –
virou a câmera do celular para uma parte da árvore.
- Que linda que ficou. Parabéns. – a professora
disse notando que ela realmente montou sozinha. Virando o celular para ver a
professora, disse:
- Obrigada, achou mesmo? Pensei que
estava feia e que não sei fazer nada certo, porque ninguém quis olhar. –
reclamou com os olhos brilhando.
- Claro que está linda. Seus pais não
tiveram tempo, mas eles vão ver depois que linda que ficou. – a professora
estava tentando ajudá-la a se animar.
- Ah, eu fiz uma coisa pra você,
professora. – saiu correndo de novo até o quarto, largou o celular na mesa e a
professora só ouvia um barulhão de coisas sendo jogadas para todos os lados.
- Olha professora. Essa sou eu, essa é
você e aqui a árvore que eu fiz. Não está igual, porque desenhei antes de
montar a árvore, não sabia se ia conseguir fazer – falou mostrando o desenho
para o celular.
- Professora? O que foi? Não gostou? –
a menina começou a se preocupar.
- É o presente mais lindo, que eu já
ganhei. Obrigada. – sussurrou em meio às lágrimas que teimavam em sair.
- Mas a senhora está chorando. –
Luziana com cinco anos não entendia o que a professora estava passando.
- Querida, estou muito grata e feliz com seu desenho. São lágrimas de emoção. Você é realmente uma luz, Luziana. – sua professora com as mãos no coração lhe abriu um sorriso luminoso de alegria enquanto enxugava as lágrimas.
Seu sorriso reacendeu a chama do amor no coração de Lulu e ela ficou animada e feliz o resto da aula. O que a Luziana não sabia era que a professora estava longe de sua filha enfermeira, que estava ficando num quarto alugado junto com outras enfermeiras para não colocar a vida da mãe em risco. As duas passariam o natal longe uma da outra, diferente de Luziana e seus pais, que passariam juntos, mas seus corações estavam bem longe uns dos outros.



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