O MILAGRE DE NATAL
Natal é o momento mais emocionante do ano, onde podemos sentir a paz das férias, a alegria dos encontros, a esperança pelo novo ano que se aproxima, esquecemos as dores e problemas, para poder sentir tudo o que este mês tem a nos oferecer, a menos que a luz do coração esteja apagada e o que poderia fazer sorrir, faz chorar.
Num bairro modesto de Canoas no Rio Grande do Sul, uma senhora, já na terceira idade, morava sozinha num dos barracos do terreno invadido. A maioria das famílias, que viviam ali, estavam com dificuldades para encontrar meios de se sustentar e alimentar seus filhos.
Dona Ana, além da solidão da velhice, pois seus filhos foram embora havia alguns anos, precisava arrastar uma perna, que por causa da trombose doía muito, mas não tinha bengala e precisava se virar.
Na comunidade, as pessoas se ajudavam como podiam, os que trabalhavam dividiam o pouco que possuíam, e ela com suas dificuldades e sem poder sair, sempre podia contar com a ajuda dos vizinhos, um deles era Clara, uma jovem que morava com os pais, três casas depois da dela.
Apesar da ajuda de Clarinha, a senhora só reclamava de sua vida, de suas dores e de sua solidão. O Natal se aproximava e outra vez estaria sozinha. Brigava com Deus, culpando-O por suas misérias.
- Como queria que meus filhos estivessem aqui. Ingratos. Fiz tudo por eles e me abandonam dessa maneira.
- Dona Ana, a senhora está falando sozinha?
- Não menina, falo com meus botões. O que quer?
- Fizemos feijão lá em casa, tudo de máscara e com cuidado, trouxe um pouco para a senhora.
- Não sei o que faria se não fosse por você, Clarinha.
- A senhora precisa de mais alguma coisa?
- Não. Eu me viro. Vá ficar com sua família, me deixe.
Clara sentia pena da senhora sozinha, mas ela não queria sua companhia. E toda vez que ia lá, ela a afastava. Queria poder fazer mais, e assim teve uma ideia. Encontraria os filhos dela para lhe fazerem companhia no natal.
Ela sabia seus nomes e o sobrenome da vizinha, assim foi pesquisando os três pela internet. Lembrou que um deles era dentista e acrescentou a profissão junto ao seu nome no site de busca. Encontrou o primeiro filho e tratou logo de entrar em contato com ele para combinar a visita.
Pareceu surpreso com o contato e explicou que a mãe os havia expulsado de casa e não sabia dizer se ela gostaria da surpresa. Clarinha insistiu, disse que cinco anos já teriam amenizado as coisas e convenceu ele a combinar com os outros de irem na véspera de Natal na confraternização da comunidade, pois seria uma bela surpresa.
No dia vinte e quatro a comunidade estava empenhada a montar mesas separadas pela rua por causa da pandemia. Na cozinha da casa de Clara, cinco mulheres de máscara preparavam a ceia de todos com o que conseguiram de doações e as que receberam dos filhos da Dona Ana. Clara combinou com eles que viessem um pouco antes para fazerem a surpresa e convencê-la de ir à ceia social. Na hora combinada vieram juntos em três carros, afinal a família havia crescido.
Ao bater na porta e chamar pela vizinha, Clara estranhou, pois não ouviu barulho algum. Abriu a porta e a encontrou deitada no chão chorando. Gritou por ajuda e os filhos dela entraram correndo para levantá-la.
Como estavam de máscara, dona Ana não percebeu que eram seus filhos, ao sentá-la no sofá, enxugou as lágrimas e disse a Clara:
- Minha querida, você me ajudando outra vez, se não fosse por ti o que eu faria. Destruí minha família. A culpa foi minha por meus filhos irem embora. Nunca me perdoarei. Nunca fui grata pela minha vida, por minha família, sempre vi só o lado ruim e não dei valor ao que eu tinha. Pensei que morreria aqui sozinha no chão, sem poder me levantar.
Os filhos se afastaram, tiraram as máscaras e disseram juntos:
- Mamãe.
Dona Ana voltou a chorar desesperada, levou as mãos ao rosto e levou alguns minutos para conseguir respirar e se acalmar.
- Meus filhos, como estão lindos, me perdoem. No momento em que foram embora eu me arrependi, mas não sabia como encontrá-los.
- A Clara nos encontrou mãe. Está tudo bem agora, hoje é o último dia que ficará nesta vila, virá conosco. - disse a filha mais velha.
- Não posso abandonar meus amigos. Quero ajudá-los. Todos são muito necessitados aqui.
- Não se preocupe, mãe. Vamos primeiro aproveitar a ceia. A senhora gostaria de conhecer seus netos?
Novamente dona Ana não se conteve e lágrimas de alegria desciam por seu rosto, levando embora toda a dor, todo o abandono e toda a tristeza, reacendendo a luz do amor em seu coração, graças a uma menina iluminada, que tornou este natal inesquecível.



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