O BISCOITO DE NATAL
A
pior coisa da pandemia, não é a pandemia, mas o mais sombrio poder de destruição, que possa despertar do profundo abismo, que existe em todo o ser humano.
Otávio
estava desesperado, pois faltando um mês para o natal perdeu o emprego de padeiro
na confeitaria da mãe do seu melhor amigo. Ficou indignado, pois se conheciam
desde a pré-escola.
Mesmo
que estiveram fechados por muitos meses, para evitar aglomeração e se ajustar as
regras e cuidados de saúde, não se conformou com a decisão.
Renan
era de uma família mais abastada que a ele, mas nem assim era arrogante, o
tratava bem e o ajudou quando sua família estava na pior, acolhendo-o na
empresa de sua mãe.
-
A senhora não pode fazer isso.
-
Otávio, querido, és como um filho para mim, mas confio no seu potencial de conquistar
mais na sua vida, e realmente não consigo manter você aqui neste momento,
tivemos muitos prejuízos, nem sei se a loja poderá continuar assim.
-
A senhora não me venha com conversa fiada, é rica, pode fazer o que quiser. Me
dispensa no natal e vem me chamar de filho?
-
Sinto muito, Otávio, mas você...
-
Isto não vai ficar assim.
Jogando
o avental sobre o balcão pegou um rolo de massa e saiu empurrando a porta para
a parte do mostruário da confeitaria. Destruiu toda a vitrine do balcão,
martelando cada biscoito sorridente do Papai Noel.
Era
um prazer contido há muito tempo, chegava a saltar cacos e confeitos por sobre
seus braços desnudos. Pequenos cortes ocorreram na sua pele, mas não os notava
ainda.
Dona
Rosa chocada se protegeu na cozinha, em prantos pegou seu celular e pediu ajuda
ao seu filho, pois temia que Otávio se machucasse. Continuou observando-o pelo
vidro da porta para ir ao seu encontro, quando ele se acalmasse.
Então,
viu algo brilhar em seu rosto e ele correu para o estoque na porta do outro
lado da cozinha, e ela foi atrás, inerte, apenas olhando sua autodestruição.
Pois, biscoitos podem ser refeitos, um coração dilacerado seria mais difícil e
doloroso, e só seria possível se ele aceitasse o processo.
Otávio
descarregou todo seu ódio primeiro nas caixas enfeitadas com fitas para as entregas.
Depois empurrou uma estante com as cestas prontas, que nem tinham donos ainda e
continuou pisando, chutando e batendo.
Renan
entrou desnorteado e encontrou sua mãe sentada numa das mesas num canto e correu
até ela.
-
Meu Deus, o que está acontecendo?
-
Não quer me ouvir, Renan, fale com ele. Não me deixou explicar.
Renan
respirou fundo, levantou-se, encaminhando-se para o depósito devagar, medindo
mentalmente cada palavra que usaria, pois não sabia mais se seus planos
continuariam como gostaria.
Ao
chegar lá, olhou os estragos surpreso com a fúria que existia em seu grande
amigo. Nunca imaginou que aquele cara de sorriso fácil, meio retraído, pudesse
explodir daquela forma.
Encontrou
Otávio atrás da estante tombada, encolhido num canto, rosto entre as pernas e
braços apoiados nos joelhos, seus dedos puxando os cabelos, banhava-se num
choro angustiado e rouco.
-
Por que isso, cara?
Otávio
se assustou, limpou os olhos com as pontas dos dedos, continuou sentado, esticou
as pernas, respirou longamente e levantou o rosto para encará-lo. Com o olhar frio
e ressentido, acalmando sua respiração, respondeu:
-
Sempre quis ser você, ter o que você tem, não precisar implorar e me matar para
conseguir um bom emprego e dar um pouco de conforto a minha mãe doente.
-
Não pode estar falando sério. Te conheço. Você é meu amigo, sempre fez e
conseguiu o que quis, porque está desse jeito. Não acredito em uma só palavra
que está dizendo.
Otávio
não ouvia, precisava ser sincero e desabafar tudo o que sentiu a vida toda.
-
Você sempre tirou as melhores notas, ficava com as garotas que eu gostava.
Claro, por que elas olhariam para mim se você era mais bonito, rico,
extrovertido e inteligente do que eu. Sempre fui sua sombra.
-
Isso não é verdade. – Enquanto Renan avançou em sua direção, Otávio com um
impulso se levantou.
-
Cala a boca, que agora eu é que vou falar. Os professores sempre elogiaram o
Renan Piavani, ai, o melhor da classe. As gurias suspiravam quando você
passava. Depois, você tinha dinheiro para cursar o curso que queria na
faculdade. Você fez o que sempre quis, não eu.
-
Mas você disse...
-
E agora sua mãe me manda embora. Sei que sou um estorvo para ela, mas dar a
desculpa de prejuízos, me poupe. Odeio você. Estar com você era como uma
inspiração, como se eu pudesse sentir um pouco do que você tinha. Pensei que eu
pudesse conquistar sozinho tudo o que você é, mas não consegui. Sou um
fracasso.
Nada
do que dissesse o faria ouvir e mesmo agora não importava. Ele escolheu seu
destino e nada mudaria isto. Renan ficou olhando para o chão procurando algo, o
que chamou a atenção de Otávio.
-
Está procurando o que? Presente pra alguma vadia?
-
Isto. Eu daria pra você na ceia de natal na minha casa.
Estendeu
o pequeno embrulho quadradinho com a tampa aberta para Otávio, que olhou o
biscoito quebrado e por um instante não soube o que dizer. Bateu e derrubou a
caixa da mão de Renan. Empurrou-o com o ombro e saiu sem se despedir.
Dona
Rosa abraçou o filho pela cintura e olhou o biscoito no chão, ainda podia-se
ver o globo de neve desenhado e dois meninos no centro. Rachado em dois, como
os dois na real estavam, separados.
-
Só queria ter tido a chance de convidar ele para ser meu sócio na confeitaria
online.
-
Sinto muito meu filho, mas o destino nem sempre explica suas razões. Quem sabe
um dia, quando ele aceitar ver além de suas ilusões, vocês possam ter seus caminhos cruzados novamente.
E o poder sombrio liberto, criado pelo orgulho e a ilusão de querer ser o que não é, o consumiu e o cegou de quem realmente poderia ser, bem mais do que desejava.



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