INSCRIÇÃO PSÍQUICA


A escola antes de se tornar realidade para as crianças, as enche de sonhos, onde elas podem ter muitos amigos, conhecer as aventuras de seus antepassados e quiçá vivenciar seus próprios desafios. Desvendar mistérios, caçar tesouros, combater o mal e conquistar terras longínquas.

Ao descobrir a verdade, muitas crianças choram, outras se desesperam e não querem aceitar, tem aquelas que se revoltam, e ainda outras que se conformam, pois sabem que não dá para ter tudo o que se deseja.

Camila sempre gostou de ir à escola, apesar de não ser como ela imaginou, adorava o quadro negro, pois o giz era mágico, criava coisas incríveis, e a professora era realmente uma artista e fazia milagres naquela tela verde.

Seus cadernos eram impecáveis, usava lápis de cor, além de canetas coloridas e canetas hidrocor, pois não conseguia decidir qual cor era a mais bonita, o arco-íris era perfeito por ter todas elas.

 Seu caderno grosso, para várias matérias, revelava que estava no 7º ano e ao escolhê-lo optou por um de capa dura com a foto de um lindo cachorro branco, que tanto sonhava em ter, mas seu pai nunca permitiu.

- Que cachorro coisa nenhuma, mais uma boca pra alimentar, bastam vocês duas. Não quero bicho nesta casa. - gritava seu pai gesticulando incisivo.

Conformada, ia ajudar sua mãe com as tarefas da casa, visto que só havia ela como filha, além disso, seus temas já estavam prontos, seu quarto organizado e sua mochila preparada para a manhã seguinte, não tinha mais o que fazer a não ser ajudá-la com a roupa.

Na escola, Camila se esforçava para prestar atenção na aula, mas sua turma era muito agitada, ficavam jogando bolinhas de papel, e ela sempre era um dos alvos. Era bastante gordinha e gostava de estudar, quietinha e conformada, não revidava os ataques, alvo perfeito.

O ano todo procurou focar em aprender, colorir seu caderno, estudar, fazer o que era pedido e não se importar com as brincadeiras dos colegas, principalmente os meninos, que a incomodavam todos os recreio e mesmo em sala de aula.

Seu esforço todo era pensando, que seria professora e não permitiria que brincadeiras como estas acontecessem, até faria seu intervalo no pátio com os alunos ajudando a inibir este tipo de comportamento, pois acreditava, que quando crescesse, ela seria ouvida.

Como não tinha amigas, sentava na beirada do canteiro perto do portão de saída, pois no meio do pátio seria atropelada pelos guris correndo, nos bancos estavam as meninas do 9º ano e suas colegas não a queriam por perto.

Mesmo quietinha no seu canto, sempre era lembrada para receber a caçoada do recreio. Que neste em especial, apesar do famoso grito chamando-a de baleia, houve um fato inesperado, que a abalou mais do que nos outros dias de aula.

Uma de suas colegas a chamou para ir se sentar com elas. Animada levantou, pegou suas coisas e a seguiu.

- Camila, querida, o que está comendo? – perguntou a líder do grupo.

- Pão com salame.

- Claro que sim. – respondeu Alana torcendo a boca. – Ah, olhem o Enzo jogando bola, como ele é bonito. Não acha Camila?

- É.

- É? Quem você acha bonito então? – Alana não escondia o ar debochado, mas Camila não o percebeu em seu olhar inquisitivo com uma sobrancelha erguida.

- Não sei.

- Fala sério. Eu falei quem eu acho. Eva, e você?

- Enzo com certeza. Camila?

- Talvez o Roberto. – respondendo a insistente pergunta.

- Sério? Mas olha quem vem ali. Beto vem aqui. Sabia que a Camila te acha bonito? – Alana estava entediada, precisava de um assunto para o resto da semana.

O rosto redondo de Camila já brilhava normalmente, mas vermelho era bem pior. Não sabia o que fazer. Nem o que dizer. Não pensou que teriam coragem para algo assim.

- Deus me livre, logo a balofa. – Enzo saiu rindo e quando as gurias rindo olharam para trás, Camila já corria longe para o banheiro.

Ninguém notou que ela ficou lá até o final do período, saindo apenas para buscar suas coisas, quando a sala estava vazia. Não perdera nada era só correção dos temas de matemática e aula de história, que detestava.

Ao chegar a sua casa comeu três pratos de comida e ainda quis pão. Seu pai enlouqueceu, mas não percebeu a tristeza da filha, apenas a voracidade com que comia.

- Camila, o que é isso? Quer me levar a falência?

- Não é nada. Só estou com fome.

- Você nunca comeu desse jeito. O que houve minha filha? - perguntou sua mãe.

Umas meninas na escola fingiram que eram minhas amigas e depois ficaram rindo de mim. Não vou mais pra escola.

- Você vai sim e eu vou tirar satisfação com a diretora. Vão ter que tomar providências pra você não comer tanto.

Camila passou comendo, o dia todo, enquanto sua mãe tentava distraí-la com os afazeres domésticos. Mal dormiu aquela noite, indo à geladeira umas três vezes pelo menos.
Pela manhã seu pai a levou até a escola, dirigindo-se ao porteiro pediu que chamassem a diretora com urgência. Os alunos estavam chegando e se aglomerando na entrada, esperando o portão abrir.

Com vergonha, Camila se distanciou do pai, não queria que notassem que eles estavam juntos e misturou-se à multidão. A diretora chegou ao portão e perguntou por que o pai não havia marcado hora para conversar, que aquele momento não era apropriado. Mas, exaltado, o pai foi logo aumentando a voz:

- É uma urgência, não posso esperar. Minha filha está sendo maltratada nesta escola e não quer vir mais. As outras meninas ficam rindo sei lá do quê, quando ela chega em casa, come igual um porco, não tenho condições de lidar com essas crises femininas. Quero que faça alguma coisa pra pararem de incomodar minha filha.

- Quem é sua filha?

- Aquela balofa ali do canto.

Comentários

Postagens mais visitadas