A FAMÍLIA EMPRESTADA
Era fim de 2020, e a esperança de um novo ano, cheio de possibilidades, deveria preencher os corações sedentos por nova chance de fazer certo o que deu errado, amar mais, perdoar mais e escolher melhor qual rumo tomar, porém nem sempre é o bastante.
Todos aguardavam ansiosos na casa de Amélia pelo ano novo, menos ela. Já tinha quarenta anos e ainda morava com seus pais e seu irmão mais novo. Apesar de tentar alcançar seus sonhos, tudo o que fazia fracassava, alguns projetos fracassavam antes mesmo de sairem do papel.
Sua família era tradicional religiosa e acreditava no poder da família, que precisavam estar sempre juntos, unidos nos momentos bons e ruins. Se preocupavam com Amélia, acolhendo-a em todas as intempéries.
Até que 2020, com a pandemia, Amélia com seu tempo livre e obrigada a ficar muito tempo em casa com sua família, começou a se questionar se o problema era eles e não ela. Queriam sua presença em casa, mas só a criticavam por tudo o que ela fazia, reclamando até do modo como pensava.
- Mãe, acho que vou me mudar para outro estado, tentar a sorte em outro lugar. - comentou Amélia.
- Bobagem menina. Não existe sorte ou azar. Só escolher certo que vai se dar bem em qualquer lugar. - respondeu sua mãe.
- Por que não leva teu currículo nas empresas aqui perto de casa e para de ficar inventando moda. Chega a perda de tempo e dinheiro com essa faculdade de arte que você fez. - seu pai se meteu dando sua opinião.
Amélia deprimida virou as costas e foi para seu quarto. Continuou pensando porque tinha que ter nascido naquela família, que não a aceitava como ela era. Então ouviu uma risada vinda da cozinha. Achou estranho que com seu irmão a família era alegre e pareciam se divertir sem ela.
Então, depois de pensar bastante, tomou uma decisão, pegou um casaco, sua bolsa e saiu. Ninguém notou, aproveitou que estavam gargalhando vendo televisão. Foi caminhando pela rua sem pensar que voltaria. Mesmo sendo o último dia do ano e sabendo que tudo estaria fechado. Não se importava de ficar sozinha na rua se isso mudasse sua vida.
Chegando perto de um viaduto notou que havia uma família abrigada embaixo dele. Sentou na beirada da calçada e ficou observando. Tinha um caderno e um lápis na bolsa e resolveu retratar aquela imagem que se igualava ao que ia em seu coração, desamparo.
Quando estava quase terminando o desenho sentiu-se observada, levantou depressa e olhou para trás. Um senhor vinha em sua direção.
- Quer cear conosco? - perguntou o senhor.
- Não quero incomodar. - respondeu Amélia.
- Por favor, nos faça companhia. Me chamo Roberto. Venha. - convidou-a estendendo-lhe a mão.
- Este é meu filho Carlos e minha esposa Judite.
- Sou Amélia.
- Por que está sozinha no último dia do ano? - perguntou Judite.
- Acho que ninguém gosta de mim. - resmungou Amélia.
- Bem, nós gostamos. Sente-se. - respondeu Judite.
- Por quê? Nem me conhecem? - perguntou Amélia.
- Por que é filha de Deus, como nós. - respondeu Roberto.
Amélia começou a chorar e Judite correu até ela e a abraçou. Ela nunca imaginou encontrar tamanha compreensão embaixo de um viaduto. Ainda mais pessoas tão solidárias, que ainda dividiriam com ela o pouco que tinham para comer.
Contou a eles que se sentia perdida e que não sabia o que fazer da sua vida. Que tudo que tentou fazer não tinha dado certo. Que queria desistir de tudo. Não queria mais viver naquele mundo, que não a compreendia.
- Nós somos vistos como vagabundos, ladrões e por aí vai, se formos acreditar que somos tudo isso, seremos mesmo. Você é aquilo que acredita ser. Não precisa da aprovação de ninguém para fazer o que veio fazer neste mundo. - sugeriu Judite.
Ao comer com eles Amélia se sentiu mal por não ter nada para dar em troca pelo carinho e por a terem acolhido tão bem. Lembrou-se do desenho e com timidez estendeu-o ao senhor Roberto que, com olhos brilhantes, a abraçou muito agradecido.
Não tinham fotos de sua família, pois perderam no incêndio que levou todas as suas coisas. Foi o melhor presente que já haviam recebido. Amélia então decidiu fazer um retrato de cada um deles e gostou muito do resultado.
No ano novo, passou a fazer caricaturas das pessoas na rua e continuou vivendo com a família de Roberto, que apreciava muito sua arte. Com o dinheiro dela e da carpintaria dele conseguiram alugar uma casinha modesta e assim Judite pode voltar a fazer seus doces para vender.
Amélia conseguiu participar de uma amostra de arte e ficou famosa. Melhorou de vida e deu uma casa para a família que a aceitou como era. Já sua família antiga, nunca mais viu.



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