A DAMA DA NOITE

A doceria sem requinte, anônima, num bairro esquecido de Porto Alegre, cheirava a rosca açucarada e café murcho. Funcionava a noite toda, perfeito para Celina, freguesa assídua em busca de privacidade para se alimentar.

Apesar do florescer dos parques e jardins, fazia frio, típico do sul. O aquecedor a gás não estava no seu melhor dia, sugerindo que mantivesse o sobretudo, mantendo as aparências. Seu chapéu de tons neutros sinalizaria sua espera ao rapaz enganado.

Olhava o líquido escuro e rançoso remanente em sua xícara sem nenhuma preocupação. O tardio não causaria nenhuma perda. Sonâmbulo em alguma viela escura ou acovardado em seu próprio quarto desejando o que não teria. Sortudo sonhador.

Era arriscado encontrar espécie duvidosa em grupos de relacionamento pela internet, mas estava enfastiada da vida que era obrigada a sustentar. Caçadas noturnas, gritaria, cães ladrando muito a noite, mudanças de cidade.

Havia um silêncio que ela não percebia, pois seu ouvir era aguçado e nem sinal da especiaria. Não tinha exigências, mas não negociava o gênero. Homens. Preferência incomum, talvez buscando provar seu poder. Além do mais, as mulheres eram cansativas e barulhentas.

No balcão havia um casal de infantes rechonchudos, buscavam o conforto dos esconderijos, que como este, não julgariam suas escolhas. Muito rubor, hormônios, arrepios, sensações que percebia, mas nunca sentiu. Desfrutavam uma torta de amora, decidiu ocupar-se e pediu a torta. Já passava da meia-noite, o inútil não viria mais.

Podia notar a rua através da vitrine nitidamente, apesar do reflexo das luzes no vidro, estava nua, o que seria um problema. O casal, o embriagado no canto e a mulher que buscou sua encomenda não serviriam. Sem prato principal, não sentia o gosto da realidade, apenas com as pobres almas que buscava podia alcançar seu ardor.

Sua pele lívida acobertava a escuridão de seus desejos. Quantas vezes estivera ali, naquela mesma mesa, nunca questionada, porém sempre a primeira vez para a balconista, que influenciada, não tinha lembranças.

Queria sair dali, porém a fome era mais voraz quando a vítima não aparecia. Irritada, cutucava a cadeira a sua frente com suas garras camufladas. Insaciável. Milhares de almas. Vida amaldiçoada.

Ao som do freio de mão, apertou os dentes em aflição pela satisfação que se aproximava. Não pereceria afinal. Aroma de suor e testosterona alcançou seu paladar ao abrir da porta. Nem levantou os olhos, ele a avistou assim que pousou seu coturno no assoalho velho.

Sim, o milico viria até ela, seduzido pelo seu requinte de movimentos.

- O que uma dama faz aqui tão tarde?

- Busco companhia.

- Não percebi que fosse deste tipo.

- Qual tipo?

- Não me leve a mal.

- Sente-se e resolveremos o mal entendido.

Foi enlaçado na trama, não podia resistir. Apetitoso.

Celina recheou a mão da balconista e levou o sujeito para o depósito, onde tinha um forte odor de alvejante. A lâmina veio rápido, direto na laringe na altura das pregas. Suas mãos seguravam o sangue que jorrava, seus joelhos atingiram o chão, e o olhar, aquele olhar.

Orgásmico diria. Sem bagunça, sem esperança, sem busca. Vazio. Apenas estática. Os homens sabem que ninguém irá salvá-los. Pegou o cutelo e cortou as pernas na altura dos joelhos. Seu corpo rolou. Enrolou sua cintura e prendeu num gancho de cabeça pra baixo. Com um balde pegou uma amostra. Agora poderia fazer uma torta bem saborosa, quem sabe até croissants.


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