O GRINGO


    Janeiro. Férias. Calor. Muita gente viaja para o litoral em busca de descanso, mudança de ares, agito e no caso de Clara, assunto para fofocar. Ela não perdia uma. A missão de vida dela era estar nos lugares onde tudo pode acontecer. Nada melhor que a praia no começo do verão.

    Clara era uma senhora de 57 anos, trabalhava como caixa de um banco desde muito jovem. Cada um que se aproximava do seu caixa ela dava um jeito de descobrir alguma coisa interessante, pois isto a alimentava. Nas horas vagas era blogueira de fofocas, onde desabafava tudo o que ouvia durante o dia.

    Ao chegar à praia procurou o lugar mais cheio e foi se enfiando por entre os guarda-sóis, até que encontrou um pequeno espaço na areia e começou a se acomodar com tudo o que tinha direito. Trouxe um carrinho cheio de coisas que pudessem atrair crianças e mães de família desesperadas por atenção e uma boa conversa.

    A mulher era um bazar ambulante à beira-mar. Tinha isopor com sorvete, água e cerveja, boia, bola de plástico, frescobol, várias cadeiras, pazinhas e baldezinhos de plástico, rádio portátil, toalhas de banho, mesinha plástica, viseiras, dois potes de frango à milanesa, chimarrão, salgadinhos e docinhos.

    Enquanto se instalava, todos a observavam intrigados e curiosos sobre a excêntrica senhora, que praticamente se mudou pra areia da praia. Pensavam que, com tantas coisas, só podia estar esperando sua família, que chegaria mais tarde. Mal sabiam que Clara era sozinha, sem parentes próximos, nem amigos, pois ninguém suportava o seu jeito enxerido.

    Após organizar tudo bem a mostra de todos, Clara foi molhar os pés na água, ver se encontrava alguma vítima para seu interrogatório revelador, havia muitas em potencial. Percebeu que uma criança de uns quatro anos estava chorando, porque a onda a virou de cabeça para baixo e agora tinha medo de entrar na água, para desespero dos pais. Indo em direção à tenda-bazar que montara, começou a anotar mentalmente cada passo que daria.

    Pegou a boia, levou à família e mostrou a menina como usar. Ela se sentiu segura e entrou no mar novamente. Os pais faceiros começaram a conversar com a senhora simpática. E a presentearam contando que a menina na verdade é adotada, mas que ela ainda não sabia.

    Mesmo ouvindo os pais seus olhos vasculhavam ao redor e outras crianças chorando chamaram sua atenção. Então, lá foi a boa samaritana e buscou a bola e o balde com pazinha. Deu a bola para o menino e o baldezinho para a menina. A mãe agradecida conversou com Clara e num desabafo mencionou que não queria ser mãe, só o fez para segurar o marido, nas duas vezes.

    Clara estava feliz, realizada, apoiava e concordava com tudo o que diziam, ela só queria saber dos podres dos outros para preencher sua vida vazia e sem graça. Então pegou o frescobol e o chimarrão e foi até o guarda-sol vizinho ao seu. Ofereceu o frescobol ao casal de adolescentes, que pareceram mais animados do que quando ela chegou, e partiram em busca de espaço para jogar, enquanto Clara usurpava seus lugares ao lado da mãe deles, que tranquila observava o mar.

    O tempo foi passando. E nada. A senhora não dizia nada de interessante. Para animar a veia, Clara buscou uns petiscos, mas nem assim teve sucesso. Começou a procurar outro lugar para ir, mas estava intrigada do porque de tanto segredo, foi quando virou e notou algo que destoava da paisagem. Um senhor aparentando meia idade com sapatos, calça jeans e camisa, que estava próximo ao mar.

    Alcoviteira começou a desdenhar o homem para sua companheira de conversa. Chamou desde gringo, fora de moda, louco até retardado. Estava transtornada, achava um absurdo tamanho desconexo em paisagem tão linda e, estava irada, pois nem assim a mulher se abria com ela. Sem se abalar, ela perguntou a Clara, por que se preocupava tanto com aquela figura excêntrica na praia. Aquilo a enlouqueceu, não podia desvendar os mistérios daquela mulher irritante e ela ainda tinha a audácia de afrontá-la daquela maneira. Levantou-se e foi para seu cantinho único para repensar sua estratégia.

    Então, decidiu andar um pouco mais levando seu rádio e o isopor. Passou pela mulher desagradável, andou mais dois guarda-sóis e viu uma moça sozinha com rosto triste. Pensou que seria uma boa oportunidade, a tristeza é porta aberta para o drama. Perguntou a moça se podia sentar e ela consentiu. Queria ligar o rádio, para animá-la, mas respeitosamente ela pediu que não ligasse.

    Mostrando preocupação, perguntou o que estava deixando-a tão triste num lugar tão lindo e alto-astral como aquele, mas a moça começou a chorar e não pode expressar com palavras o que sentia. Inconformada, Clara esperou e lhe deu uma garrafinha d´água. Até que viu novamente o gringo passando todo enroupado pela beira da praia. Para animar a jovem resolveu fazer piadas sobre ele.

    A jovem de olhos avermelhados, olhou para o senhor, depois para Clara e explicou que ele não era gringo, nem desavisado, apenas tinha acabado de enterrar a esposa, que por acaso era sua mãe. Clara não conseguia articular palavra, levantou-se e foi embora e por um bom tempo não voltaria à praia.

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