O FIM DA HISTÓRIA


Viajar de trem pra Porto Alegre é um saco, mas pra novo Hamburgo é uma tortura, passar quase cinquenta minutos da tua vida dentro de uma lata enferrujada e fedorenta, desanima qualquer um. Saí atrasada, mas tive sorte de embarcar e ter um lugar vago me esperando, normalmente espero até a Sapucaia pra sentar, o que leva em torno de vinte minutos.

Gosto de usar bem o meu tempo, lendo um bom livro, às vezes, leio em pé mesmo, me apoiando nas pessoas entre um solavanco e outro. Mas a sorte de sentar acompanhou o azar de ter por companhia duas senhoras tagarelas a minha frente.

Sentei colocando meu casaquinho, pois o frio vem pelas janelas ou pelo ar condicionado. Arrepiada, encolhi meu corpo no assento, me ajeitei, olhei para a página, e não li nem uma palavra. Tentei em vão olhar para as letras, e nada. Tinha outra história mais interessante em áudio acontecendo.

Levantei o livro em frente ao meu rosto e espiei por cima dele as senhoras numa prosa animada, resolvi prestar atenção. A loira era a que mais falava, a ruiva só concordava. Pulavam de assunto tão facilmente, parecendo que se conheciam há bastante tempo. A loira reclamou da espera para conseguir consulta médica, do preço o arroz, do açougueiro tarado, até do filho baterista da vizinha do andar de baixo, mas, de repente, uma história me deixou curiosa.

- Vai cair sua dentadura no chão agora com o que vou te contar. No prédio em frente ao meu tem um casal, já com seus 40 anos, mas sem filhos. São bem educados, me cumprimentam quando cruzamos pelo condomínio. - A loira da um risinho daqueles envergonhados, preparando a ruiva para o que viria.

- Eles gostam de manter as cortinas fechadas, devem ser envergonhados, mas não a mulher, quando o marido não está. Não adivinha o que eu vi. Ai meu Deus, que estação é essa? Eu preciso ir.

A loira ia descer, mas isso não podia acontecer. Como saberia o resto da história? Precisava ir trabalhar, e claro que ela ia descer na Sapucaia. A porta estava quase fechando quando decidi segui-la. Ela já estava na escada rolante no meio da subida, quando notei que tinha muita gente naquela estação e eu nunca havia descido ali, não sabia onde ficava a escada fixa pra alcançá-la.

Perguntei pra uma moça e ela disse que ficava na outra ponta da plataforma, ia perdê-la de qualquer jeito, resolvi arriscar. Esbaforida corri escada acima, olhei pra todos os lados, vi as catracas, fui até a saída, tinha uma passarela pra direita e pra esquerda. Perdida, desci pela que tinha mais gente.

Quase no meio da passarela avistei a senhora, estava conversando com uma guria. Cheguei a pensar que ela havia encontrado mais uma conhecida, deveria fazer esse percurso todos os dias. Com cautela, fui me aproximando para ouvir a conversa, de repente ela se anima e conta a mesma história pra guria.

Parecendo uma stalker, continuei seguindo a loira de perto para poder ouvi-la. Estávamos nos aproximando de uma parada de ônibus, isso me deixou agoniada, por que não queria fazer um tour por Sapucaia em plena terça-feira na hora do pico.

A loira deu um ataque, ficou vermelha, talvez estivesse faltando o ar, mas estava apenas rindo. Senti que havia chegado o momento de descobrir os podres de alguém que nem conhecia, a curiosidade estava me corroendo, mas estava enganada.

Sua companheira fez sinal e dirigiram-se para a porta do ônibus. Não havia chegado até aqui para desistir. Segui em direção ao ônibus, sem em saber para onde iria.

Só havia lugar na janela, que foi onde a senhora sentou e a guria apesar de curiosa não teve coragem de perguntar o resto da história, pois era uma fofoca constrangedora provavelmente pelo estado que a loira ficou poucos minutos antes.

A viagem seguiu e desesperada olhava pela janela sem saber como eu voltaria depois. Passados vinte minutos, algumas pessoas foram descendo e fui me sentando mais perto da loira para ouvir melhor. A moça acabou descendo, enquanto isso vagou o lugar ao lado da mulher.

- Bom dia! – sentando ao lado da senhora.

- Bom dia, minha filha! Estava cheio o ônibus hoje. Ainda bem que sentei logo que subi, senão ia ficar caindo nas pessoas. – respondeu sorrindo a loira.

- Capaz, com certeza dariam lugar pra senhora sentar.

- Pois, sabe que fui no postinho ver minha pressão e ninguém deu lugar pra mim. Fiquei meia hora encostada numa parede. Vou seguido ver a pressão, pois não consigo marcar consulta com o doutor do coração, só pra daqui uns dois meses. Tu vê que absurdo né?

- Realmente. – Comecei a pensar que ela ia descer do ônibus sem me contar o que eu queria saber e resolvi acabar com o suspense. – A senhora não pense que sou enxerida, mas na parada de ônibus te ouvi comentando sobre um casal vizinho seu, fiquei curiosa sobre o que a senhora viu da sua janela, não se importa de me contar? – No fundo não sabia onde meter minha cara, pois a senhora arregalou os olhos meio constrangida.

- Chegue mais perto. - Agora temendo ser ouvida por mais alguém. - A mulher se transformava em outra pessoa. Com o marido parecia tão educada e sensata. Mas sozinha... - aquele risinho de satisfação de novo por estar fofocando - sozinha era irreconhecível. Passava o dia assistindo tv, o cabelo um ninho, a casa provavelmente imunda, não via essa mulher arrumar a cama, nem lavar roupa, ficava dias com a mesma roupa. Imagina o pó, nem devia enxergar a cor dos móveis. Como ainda estava casada, eu não sei. Você devia ter visto, uma desleixada. Você está bem, minha filha? Ai meu Deus, é a minha parada. A gente se encontra por aí.

Tive um ataque de riso, não conseguia parar e só conseguia pensar que não devia ter me atrasado naquela maldita terça-feira.

 

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